Minhas considerações e recomendações se baseiam, de pronto modo, na prática efetiva em sala de aula, em tentativas seguidas de erro e acerto e na vontade contínua de melhorar e obter cada vez mais prazer na atividade que mais me realiza: a docência.
É curioso perceber que cada turma aprende de uma forma diferente, cada indivíduo aprende de forma diferente e mais, muitas vezes o mesmo indivíduo, vai aprender de formas diferentes em momentos distintos.
Além de todas as diferenças de personalidade, de formação social e cultural, ainda há a variação de estado de espírito e humor a que todos, inclusive os professores, estão sujeitos. Torna-se extremamente difícil, muitas vezes, entender o ponto de vista do outro, se colocar no lugar do outro, afinal, apenas ele sabe - parafraseando o poeta – a dor e a delícia de ser o que é. Todas as experiências, todas as dificuldades, todos os medos e toda a expectativa juntos, misturados num mesmo “caldeirão”, que, a depender da habilidade do “cozinheiro”, pode se tornar um raro “banquete”, um “prato comum” ou o que é pior, uma tentativa frustrada de “prato”.
Ao acender das luzes de cada semestre nos deparamos com novos rostos, novas aspirações, novas expectativas, novas cobranças e principalmente novos desafios. A evolução e o aperfeiçoamento didático do professor deve ser constante.
Recentemente tenho me permitido mudar algumas práticas comuns no ensino do Direito. Em regra, muitas vezes o professor se restringe a tentar “repassar” o conhecimento ao aluno, limitando-se a ensinar ao aluno seu próprio ponto de vista. Aulas sem criatividade, monologas, enfadonhas e tediosas, muitas vezes apenas se resumindo à leitura e explicação de leis.
Confesso que cheguei a me sentir nessa situação, momento no qual, passei a buscar formas de melhorar meus métodos de ensino bem como de dinamizar minhas aulas de forma que conseguíssemos, tanto eu como os alunos, juntos, construir ou mesmo reconstruir o conhecimento que eles necessitavam.
Pois bem, uma das primeiras novidades (bem sutil), foi incorporar cada vez mais os alunos às aulas, tomando-os como exemplo das situações hipotéticas e introduzindo-os de fato nas aulas. Em seguida, passei a incluir nos slides de aula as dúvidas colocadas pelos alunos bem como as hipóteses novas que eles me traziam. Muitas vezes, as hipóteses eram complexas e demandavam pesquisas, que eu, além de fazer, pedia que tanto o autor da hipótese, bem como os outros alunos fizessem também. Na aula seguinte apresentávamos os resultados logo no início da aula, antes de seguir adiante com a matéria. Chegou um ponto, que a turma se sentia tão à vontade com tal prática que a parte mais esperada da aula era o final (detalhe: aulas noturnas quintas e sextas no último horário).
Senti, depois dessas mudanças iniciais, além do maior interesse geral e individual em aprender, que a turma se uniu mais em torno do mesmo objetivo. As discussões entre os alunos se tornaram freqüentes, o nível dos argumentos subiu consideravelmente e entre eles passou a ser motivo de orgulho aprender mais para construir as melhores e mais interessantes hipóteses.
Após perceber tal crescimento da turma e o maior interesse geral pela matéria, passei a tentar entender melhor a forma como aprendiam, como aprendiam melhor, quais os métodos atendiam melhor. Conseqüentemente, após tal prática, pude me aprimorar na forma de ensinar, de acrescentar, no papel de professor, informações, reflexões e orientações para que cada aluno pudesse buscar e construir seu próprio conhecimento, sua própria forma de aprender.
Passei então a levar comigo as dificuldades da turma, de um pequeno grupo, ou de um aluno apenas em compreender determinados pontos da matéria e a tentar desenvolver formas específicas que os atendessem, que facilitasse o aprendizado. Curioso é que algumas vezes os próprios alunos sugeriam formas que consideravam melhor para atenderem. Quadros comparativos, esquemas, fluxogramas etc.
Outras mudanças vieram. Com uma turma em que leciono Direito Penal, ao invés de trazer o casos prontos, e na maioria das vezes fictícios, para serem resolvidos, passei a pedir que trouxessem notícias de jornal, de crimes pertinentes à matérias que estávamos estudando. Com a variedade de casos que apareciam, podíamos trabalhar e discutir de forma mais produtiva e pude perceber claramente a satisfação dos alunos em poder contribuir, dar cada um seu “toque pessoal” à aula e dividir também sua própria forma de entender e aprender com os outros.
Depois de todo esse processo, várias novas formas de dividir e compartilhar o conhecimento com os alunos surgiram, não de forma teórica ou aprendida em um curso formal, mas sim na prática da sala de aula. Até então, eu não tinha a menor idéia que grosso modo eu era adepto do construtivismo. Hoje, já conhecendo um pouco mais sobre o processo de conhecimento e as teorias de aprendizagem percebo que progredi, mas que ainda tenho muito a aprender e a melhorar, e mais, percebo que intuitivamente já aplicava muitas delas (teorias), mesmo sem ter consciência disso.
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